O dia que você foi embora…

Cannon 06-09 139

Se alguém me perguntar qual é a minha reação diante da morte, não saberei dizer. Já passei por diversas perdas, de amores, de parentes e de animais. Em cada uma delas, reagi de formas diferentes. E nessa última, demorou alguns dias para a ficha cair. Segunda-feira, nossa Cleozinha nos deixou. Foram tantas anos juntas que não sabemos dizer ao certo qual era sua idade. Apesar do meu chamego explícito com o cachorrinho urso, nunca deixei de amar a minha pretinha.

Fecho os olhos e consigo lembrar de tantos momentos dela, de quando morávamos aqui nesse apartamento, anos atrás. Do osso barulhento que ela adorava jogar de um lado para o outro do corredor, do barulhinho que suas unhas faziam no taco, da sua mania de me lamber quando pegava no braço e de como eu já sabia que ela estava perto de mim pelo cheirinho que era só dela. Ela ficava na beira da cama pedindo para subir porque já não conseguia pular como antes e quando a gente dizia que não, se conformava e ficava ali mesmo, no pé da cama, fazendo companhia. Quando levávamos para passear na rua, cheirava mais do que andava. Enquanto, a outra cachorra rodava o quarteirão, ela ainda não tinha saído do primeiro poste. Brincávamos dizendo que era nosso cão detetive farejador. Morria de medo de fogos e nos últimos anos, tanto no São João como no Ano Novo, ficávamos aflitos achando que seu coração não aguentaria a queima de fogos e ela nos deixaria.

Cachorro preto, cachorro piche, fuscão preto, pretinha básica… todas as vezes que a via, inventávamos um apelido novo. Nunca vou esquecer de quando mainha trouxe ela, era tão pequeninha e se chamava Nina, a gente achou tão feio aquele nome e resolveu dar um nome de Rainha: Cleopatra! Ela cabia na bolsa e a gente levava dentro do ônibus pra todo canto. Sempre muito quietinha e muito companheira, sabia quando alguém estava triste e sempre dava um jeito de ficar por perto. Ela viveu tanta coisa junto com a gente, morou em vários lugares, viajou para tantos outros, sempre dormindo enroladinha na sua casinha que tanto gostava ou em cima de algum paninho.

Nos últimos anos, ela já não enxergava mais, a gente jogava alguma comida e ela ficava procurando no ar, sem perceber que já estava no chão, bem ali na sua frente. Passava o dia na caminha dela e só levantava para comer e fazer xixi. Da última vez que me visitou, não correu pela casa, não olhou os carros pela janela da sala, apenas deixou de lembrança um xixi no meu tapete da sala. Fiquei tão chateada naquele dia, mas hoje, até disso estou sentindo saudade.

Todo mundo aqui de casa já sabia que ela iria embora a qualquer hora, eu me achava super preparada para esse momento. Porém de ontem para hoje, percebi que por mais que a morte já tenha se apresentado de várias formas e contextos para mim, nunca vou conseguir me acostumar com o vazio que ela deixa em nossas vidas. Despedidas serão sempre despedidas (e sempre doloridas). Ontem, Manel me pediu para não ficar triste, porque Cleozinha agora estava correndo e brincando pelas nuvens. Quero acreditar que isso é verdade, porque essas são as lembranças que quero guardar da minha pretinha brincalhona. ♡

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